sexta-feira, 7 de junho de 2013
Reticências
Parei de contar. Quase um mês, eu acho. Não há ponto, vírgula, interrogação, exclamação alguma. Vejo três pontos, apenas. Só há reticências. Queria não me importar, não ligar e ignorar simplesmente. Não faço assim. Acontece que penso vinte e quatro horas por dia, todos os dias da semana. Procuro encontrar um olhar perdido, um jeito meio tímido, calado e ao mesmo tempo engraçado em qualquer bar por aí. Não encontro. Lembro de cada detalhe do teu rosto. Dos olhos cansados, dos lábios finos, do sorriso no canto da boca. Sei tanto de você e pouco sobre mim.
Não me importaria tanto, se a lembrança da barba mal feita não tivesse tatuada tão claramente no meu corpo. Um incômodo pra você. Para mim, uma das sensações mais gostosas de sentir. É isso, lembro como era bom acariciar teu rosto barbado. Sensação só superada pelo êxtase de cheirar tua pele, beijar teu nariz, te mordiscar - embora essas mordidas não te agradassem. Apesar de me sentir podada, involuntariamente, minha boca novamente insistia em te morder.
Nunca te contei, mas lembra aquela sexta-feira? Então, eu te vi dormir. Te observei durante o sono profundo. E com o rosto junto ao meu, se desligou do mundo por algumas horas. Não me incomodei com o ronco suave. Achei engraçado quando se assustou dormindo. Fiquei imaginando o sonho ou pesadelo que teria provocado aquele pequeno susto. Deitei no teu peito e você, sem perceber, apertou minha mão. Eu fechei os olhos e me concentrei em te sentir. Um silêncio intenso se instalou naquele quarto. Encostada no teu peito, peguei no sono com a música das batidas do teu coração.
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